Comentário especializado

Nótulas sobre nova intervenção dos EUA no Médio Oriente:

– A putativa perversidade da política, bem escondida pela capa da invisibilidade da diplomacia;

– O Irão muito bem defendido, do ponto de vista terrestre, pela sua geografia física. Com uma dimensão equiparada ao Reino Unido, França e Alemanha, também é um «gigante» populacional e com um efetivo nas suas FA de mais de meio milhão de pessoas;

– Se a geografia física é protetora, como se demonstra pelo relativo sucesso na componente terrestre, apenas pelo império Mongol, é simultaneamente rude relativamente às condições de habitabilidade; o terreno montanhoso é ditador ou pelo pelo potencia alguma falta de coesão, fragilidade que se mitiga, por exemplo, graças à religião; cumulativamente, a perceção ou a realidade de ameaças externas reforça tal coesão, fazendo com que se junte, aquilo que se encontra normalmente separado; não foi o mesmo na altura do feudalismo e das Cruzadas; e já agora, na Península Ibérica, quando é que os reinos cristãos se uniam?

– A importância das políticas internas e das consequentes agendas, nas linhas de ação externas;

– O poder funcional da localização iraniana à custa de Ormuz, gargalo excecionalmente importante em contexto do fator geopolítico/geoestratégico circulação (cerca de 17 milhões de barris de petróleo por dia em 2018, tendo em atenção que não estamos só a tratar de recursos energéticos)); de qualquer maneira a eventual dificuldade criada pela possibilidade do seu «fecho» ou ameaça de tal, afetaria o mundo na generalidade e, porventura, prejudicaria outros muito mais que o oponente norte-americano, pelo menos de maneira direta. Importa referir, por exemplo, que mais cerca de 80% do petróleo que por ali navega vai para Estados da Ásia, incluindo a China, o Japão e a Índia; não deixa de ser interessante dizer que a utilização da conduta/pipeline, em substituição da via marítima é possível, mas só dois países da região têm condições para o fazer: a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos e em quantidades menores que a «metade marítima»;

– Interessante o ataque ser efetuado no Iraque, local onde a cisão entre Sunitas e Xiitas se decidiu, prevalecendo os primeiros; regressámos à célebre batalha tida em tempos muito idos; Iraque que quase que funciona (ou funcionava) como território separador do Irão e da Arábia Saudita. Ainda dizer que Iraque fraco, promove um Irão mais forte e com maior configuração de domínio; é uma ponte com pilares mais robustos aquela que se faz com os aliados xiitas no Iraque e com as necessárias extensões à Síria e até ao Hezbollah no Líbano; estamos quase «a banhos» em virtude de termos chegado à costa mediterrânica.

– Os EUA têm todo o interesse em manter estável a região (de outra forma, como controlar o espaço eurasiático?) e, por conseguinte, não criar condições para o surgimento de uma potência hostil naquele espaço; em boa verdade, nem materializa vantagem que se veja, num Irão hostil; antes pelo contrário, como, de igual maneira, outros tempos o mostraram. Irão que encontra contrapoder na Turquia, curiosamente, sucedâneos de impérios poderosos (e o que isso significa), como o Persa e o Otomano, respetivamente e ambos, os sucedâneos, predadores do Médio Oriente (teremos que juntar Israel, Egipto e Arábia Saudita, julga-se).

– Envolvimento maior da NATO a pedido da superpotência…talvez para aquilo que se gerar fora do controlo;

– Mais sanções, agora, para serem aliviadas, para lá do dobro, depois. Retaliações iranianas, já, com oportunidade, multiplicando efeito do ambiente das cerimónias fúnebres, onde pereceram mais pessoas que aquelas potencialmente objeto de tal forte «vingança».

– A importância da dimensão militar do Poder;

– A importância da técnica e da tecnologia;

– Mas afinal o que se quereria dizer quando se afirmou (o Presidente dos EUA) das derrotas militares dos Persas. mas da sua mestria na ação diplomática?

Nótulas (iniciais) sobre a Europa e União Europeia – a conjugação dos métodos

– A palavra «Europa» e suas antigas origens; aquele conjunto resistente integrando o lado grego nas conhecidas contendas com os poderosos Persas; tal ideia de resistência também presente, na palavra «Europenses», pairando na conhecida batalha de Poitiers, sinalizando, com a vitória de Carlos Martel, a proibição ao avanço ainda maior da extensão muçulmana;

– Em conjugação com o anterior, qual a ideia dos outros, em tempos que quase ou só quase as cavernas nos recordam, sobre a «Europa»? Que poderes tido como dominantes por lá proliferaram? E do ponto de vista da cultura? E mesmo sobre o prisma do que é hoje conhecida como ciência política?

– A designada Europa e a ideia da paz. A modernidade/contemporaneidade ofusca os tempos marcadores do nascimento, fragilizando até razões néscias, incluídas as religiosas?  Não terá um tal Felipe, dito como Belo, recebido uma carta de Pierre Dubois, nos idos do século XIV falando desse guerreiro conceito e da sua materialização, que é a Paz? E a sugestão efetuada ao rei francês por esse vanguardista Georges de Podiebrad, em pelo século XV, não se escusando até a propor umas, diríamos nós hoje, Forças Armadas europeias? Que perigos, para os proponentes, justificavam ou justificariam tais arrojadas conjuras? E por aí fora…o pensamento não se pode amarrar apenas à milestone chamada Jean Monnet ou a outras designadas por esquisitos mas compreensíveis nomes, como a CECA… e sobre modernas noções de défices públicos, dívidas públicas, dívidas externas?

– Como eram os povos dessas alturas? Que arreigados vetores de pensamento possam ter subsistido? Tomaram novas formas? E no abundante manancial de informação feito frágil, se não falsamente, de conhecimento, que papel histórico dos apelidados hodiernamente de sistemas educativos, corporizaram e desempenharam – alunos de outrora, professores, decisores e outros de hoje – ?;

– E a Europa, tão bela, mas que tentou fugir a Zeus e não conseguiu, é diferente de União Europeia. E já agora, o que a História nos ensina, quando se alarga, mas ao mesmo tempo, se aprofunda? Os atómos não se ionizam?

– o Danúbio, tão grande, como tão belo, tão navegável, como tão fronteira. Não esquecer que tanto se constituiu como um dos «limites» do Império Romano, como desempenhou igual papel para aqueles impérios depois desaparecidos no final da Grande Guerra; afinal separava os impérios Austro-Húngaro do Turco Otomano. Parte dos retalhos europeus mantém a afirmação do nascido na Alemanha como elemento natural de fronteira, pele limítrofe de países como Roménia, Bulgária, Sérvia, Croácia, Roménia, Hungria, Eslováquia e…o Negro acolhe-o bem em final de jornada, também tipificada pelo forçoso e forçado pensamento sobre as caraterísticas deste líquido sulco (navegabilidade e consequências) e das terras por ele enriquecidas; voltamos também à planície europeia e o que conhecemos sobre a mesma, aguçados por exemplo, por Mackinder ou por tamanha densidade histórica que também as planícies, tanto revelam, como escondem.

– É com a Eurásia, a grande massa terrestre, tanto de Mackinder, como de Brzezinski, que a expressão «península europeia» parece recolher maior lógica; e se há uma península, também existirá componente mais ou mesmo continental desse território assaz dominante; a fronteira lá está, quase eterna, que é o mesmo que dizer Estónia, Letónia, Lituânia, Ucrânia, Polónia, Bulgária…pelo menos, agora, como sempre, com este a relembrar dimensões e configuração da União Soviética; e se recrutarmos informação, também nos aviva o Império Russo. Se a Ucrânia escorregasse e caísse para o amparo russo, a fatalidade posicional da Polónia emergeria da profundidade geográfica onde por vezes se esconde.

O (algum) retorcido pensamento

– Quer o quadro pintado pela metodologia de análise geopolítica, em particular, quando se utilizam métodos que se embrenham por ideias de tangibilidade difícil, quer o peregrimo ideário de Ó Tuathail e Dalby (1998), na exemplificativa componente denominada de «geopolítica popular» e, para além do que pudemos referir nas páginas 65 – 75 de «Geopolítica. Velhas mas novas paroximações e o contrário» (2012), encaminham-nos para um conjunto de reflexões que, no nosso ponto de vista, não são de afastar da «disciplina tão maldita, quanto tão atraente. Assim, permitam…

a. O que é hoje a verdade, sabendo nós, por raciocínio dedutivo, que é objeto, quer daqueles que a enunciam, quer daqueles que a modificam, ostracizam ou até que se pronunciam exatamente no sentido oposto? É «essa coisa» um instrumento de Poder? Será ela importante em si mesma ou, hoje, o verdadeiramente importante, é aquilo que se pensa ser verdade, bem vendido ou não?; é aquilo que o grande caudal da inocente ignorância diz ser verdade? é aquilo que o miserável de pensamento, feito elite por cargo/funções, diz ser a verdade?

b. Passou a ser verdade qualquer opinião? E se são verdades opiniões divergentes, que novo, mas velho caminho se apronta para ser trilhado? E isso interessa para as persistentes dinâmicas de Poder que se geram?

c. E todo o conjunto de «verdades», enviadas em massa de uns para outros, a diferentes escalas, compromete a nossa capacidade de pensar, pese embora nos convençamos que cada vez mais somos «pessoas de pensar»? Tanto pensador é o mesmo que não ter nenhum.. e quando assim acontece…

– Sim; os Balcãs Eurasiáticos «obrigam» os EUA a procurar aliados como a Índia (Brzezinski, 2004). Sim, mas sem grandes fortalecimentos na componente naval. Sim, são naturais os acordos, entre quem está fora do sistema eurasiático, mas que necessita de aí efectivar algum controlo, e entre aqueles, gigantes desse grande território, mas que neles perdem exclusividade, por um lado e, por outro, não esquecem os diferenciais de Poder existentes. Sim..

A COVID-19

Algumas reflexões, em linha com os «nossos assuntos», gritam guturalmente, querendo ou nem por isso, emergirem para se deixarem ver pelo comum dos mortais; deixemo-las então respirar:

– Deve-se conhecer os povos, o tal elemento móvel dos Estados. Tais ideias se amarram a conhecimentos antigos, com reflexos contemporâneos, incluindo-se nas formas de governar; neste conhecimento também se devem incluir reflexões, hoje e como sempre, como queremos que as sociedades sejam no futuro; individualismos, solidariedades, a estupidez emocional, a aceitação de tudo, o que quer dizer, por sua vez, a extinção das referências e outros. Na metodologia de análise geopolítica, lá encontramos, se o quisermos empregar, o método do comportamento. A conjugação como o elemento científico/tecnológico, abordado mais à frente, por outra face do prisma, também é forçosa. Por exemplo, a «rede», a «rede das redes», tanto informa, como manipula; tanto ordena, como semeia o caos; tanto solidariza, como promove o individualismo (começou com a televisão); tanto junta, como divide. Não há mal em si; só o há, quando essa consciência migra para territórios ainda hoje desconhecidos; porventura, aqueles que começaram a ser ocupados por sistemas educativos (onde se inclui todos os seus agentes) artificializados, quiçá parcos disso mesmo: educativos;

– A transdisciplinaridade do conhecimento, exigível e exigida, também presente no quadro de decisões tomadas, quer internas, quer aquelas com reflexos externos; aquela tipicidade entronca diretamente na capacidade de associação dos decisores;

– O assunto «fronteiras», na sua magnitude, particularmente as terrestres, não ostracizando reflexões sobre vantagens/desvantagens das fronteiras únicas;

– A utilização ou criação de estruturas em tempo «recorde», como manifestação de Poder, tal como a capacidade em injetar grandes quantidades de dinheiro para diferentes finalidades, sem colocar em causa a sua «bondade»; importa, na nossa opinião, também dar conta da importância do «Poder percebido», quer pelos outros, quer também pelas nossas populações;

– O reforço do pensamento que nos remete para a nossa essência, que muitas vezes é ostracizada, por tão evidente, mas que conviveu, convive e irá conviver, enquanto não nos modificarmos muito, realidade que a antropologia e a etologia certamente não nos deixarão esquecer. Às vezes a mente (a minha) só se inunda com um parágrafo escrito no livro «O Salto do Tigre. Geopolítica Aplicada e que se passa a replicar: “Como gostava de dizer o médico Konrad Lorenz (1974), para tratar os doentes é primeiro necessário conhecer a doença. Todavia, com a contumácia conhecida, nós continuamos a ser dos poucos animais que, ante a ameaça da catástrofe, nos contentamos com a produção de belíssimas declarações de fé nas capacidades do homem, esse animal tão mal conhecido. Valha-nos isso” (Bessa e Dias, 2007, p. 123);

– A eventual consequência que esta tipologia de assuntos terá nos diferenciais de Poder; importa atentar que tais eventuais alterações só se poderão revelar a médio prazo e na justa medida em que possam não ser «escondidas» pelas «portas da perceção». Por outro lado, também poderão não ser necessárias tais revelações, particularmente no curto prazo, na justa medida da convivência com a atual e incerta circunstância. Importa ainda atentar que, no quadro da nossa organização atual, elementos de natureza negativa em determinados setores, querem dizer dados positivos noutros…antes de qualquer juízo de valor;

– A importância dos OCS, mas também da sua especialização no «framing» (Dodds, 2007); por extensão, a lente chega às redes sociais…o pensamento também percorre, certamente, corredor estreito, no domínio da informação vs conhecimento, por um lado e, por outro, no equilíbrio que se pretende entre nenhuma ou muita informação, até na perceção dos povos; de facto, os povos ao carregarem em botões, vêem-se confrontados, de maneira intensiva, sobre o mesmo e em todos os «tempos»…calma ou pânico? racionalidade ou irracionalidade? Quem dirige? E mais…atente-se na linguagem mobilizadora, por guerreira, mas sem guerra, apelando para e a «soldados» que o não são, mas que passam a ser…sim, em termos figurativos, mas com ideia de coesão, de mobilização e outras que, por acaso, são bem frágeis noutros tempos…naqueles da não guerra, mas que se continua a precisar de soldados;

– por conjugação com o parágrafo anterior, independentemente da autoria, é bom dar conta ao nosso pensamento e ao daqueles que veiculam os sempre úteis gráficos, que os eixos têm unidades e escalas a que as mesmas são traduzidas; não deixa de ser, tão curioso, como interessante, que diferenças, por exemplo, de 0,5% podem ser refletidas em «picos enormes», materializando enormes irregularidades, como o contrário. E quando as escalas são logarítmicas…a população perceberá logo tudo; a nossa e a dos outros…;

– A consequência negativa da artificialização que se faz de diferentes e diversas (os) organizações, capacidades, meios e instrumentos, em particular daqueles que se associam diretamente à consecução das finalidades teleológicas dos Estados; quando em situação anormal, são chamados à colação…;

– o medo como grande indutor dos comportamentos, ações e reações;

– as vantagens dos territórios com menor densidade populacional ou com menor «índice» de atração para o Ser bípede; ontem, hoje e amanhã, a essencialidade do território; sem comprometer menções posteriores a este parágrafo, «voluntariamo-nos» para cair no «buraco» de sempre, isto é, nos elementos de geografia física e humana, coadjuvados em abundância pelas designadas «geografias especializadas» (demografia, clima, estruturas sociais, económicas, «desenvolvimento humano»…); tal cratera ontem, hoje e sempre analisada, com instrumento transdisciplinar e para, no nosso caso, merecer intervenção intencional da política, seja a polis sujeito e objeto em simultâneo;

– as medidas restritivas, particularmente aquelas que fragilizam as relações externas e, em linha, as de comunicação de transporte, configuram-se, recortam-se e anunciam-se com a forçosa prudência, dadas as putativas consequências, mas são reveladoras dos fenómenos de interdependência e mais, da dependência, por vezes e se calhar exagerada, de recursos diretamentes associados às necessidades básicas do Homem, organizado em sociedade; exemplos: recursos alimentares, recursos na área da assistência sanitária, entre outros;

– sem esquecer o contexto que a geopolítica encerra, a má circunstância envia-nos por autoestrada ainda aberta para o fator geopolítico «estruturas, muito particularmente para as «sociais». Recorda-se, apenas para iluminar que com a análise desse fator “pretende-se identificar, reconhecer e caracterizar a forma como determinada sociedade se encontra organizada, nas suas diferentes e diversas vertentes; esta caracterização tem que ser relacionada com as «performances» dessa sociedade que por sua vez, influenciam as interações nos espaços regional e mundial” (Dias, 2018, p. 204). “Relativamente às estruturas sociais, deve procurar-se compreender e analisar ps mecanismos de assistência médica, dos serviços de emergência (…), dos serviços de assistência social (…)” (Dias, 2018, p. 206);

– seria interessante, após passar a tempestade, que se pudesse refletir sobre a temática que segue, sem antecipados juízos e no pressuposto da emergência conviver nos países signatários (incluindo Schengen): UE. Complementaridade, confluência ou «impecilho»? Outra «linha« de raciocínio pode seguir a constante que por o ser, banaliza-se, não se estuda ou simplesmente se esquece (a memória não é o nosso forte, diríamos). Mas não é a Nação a coluna vertebral da nossa Europa e, por conseguinte, da União Europeia? E se ela, a Nação e imanentes espaços onde convive, pode constituir músculo mais forte e resistente, porque é que na dificuldade, na desavinda opinião, se recordam ou se inventam exemplos para a constituição muscular se fragilizar? Significa desprezar a Nação e aqui, com a vénia para a rima, é que se encontra uma das essências da questão;

– a importância dos «territórios e povos produtores», bem no início dessa «coisa» intelectual das cadeias de abastecimento; e estamos a falar de petróleo, de lantanídeos e actinídeos, de máscaras cirúrgicas, de substâncias para medicamentos e muito mais… e a competição continua (quiçá até conflito), não com os recursos, mas por estes; ainda neste contexto, se destaca importância de esquecidas contiguidades territoriais ou de proximidade territorial, que possibilite a existência das tais cadeias, mas curtas, pelo menos para aqueles abastecimentos que deveriam constituir «reserva» (mais à frente de falaremos), admitindo a nossa incapacidade para os forjar; a perspetiva económica nem sempre justifica tudo, incluindo-se viagens de milhares de quilómetros e sem garantia de qualidade (na prática) e quiçá por ganho de mísero «euro»; mas é uma opção…;

– em linha com o parágrafo anterior, importaria dar conta de que a questão da produção se associa com os seus custos e com a capacidade/possibilidade de escoamento. Em tempos difíceis para aquisição (começando a mobilidade a mover-se…), o preço é ouro e produtores com custos de produção mais baixos, com produtos de qualidade e que não se confrontem com problemas de violência interna, de fragmentação e outros, assumem vantagem, se lhes for possível tirar partido da frágil circunstância; e mesmo aqui, o factor «geo» lá se encontra embutido, até porque, por exemplo, no caso do petróleo, os custos de produção «onshore» serão menores que os «offshore». E já agora, quem lhe for possível «mexer» primeiro, também pode adquirir primeiro e mais barato, aproveitando até para repor, se for o caso, reservas estratégicas (sobre o conceito, mais abaixo teceremos comentário); para quem pense, sim, de maneira retorcida, como a realidade do e no mundo nos ensina…

– a noção do diferencial de Poder entre os EUA e a China e as correspondentes ações dos Estados Unidos da América e da China; naquelas se integram respostas aos pedidos de ajuda (incluindo-se «iniciativas privadas»), a «corrida» para a vacina, a resolução do próprio problema interno. As ajudas chinesas a todos os interlocutores são importantes, lato sensu, mas, por exemplo, à Grécia…muito significativo. A Rússia também se encontra muito ativa nesse processo; também é assunto, por referência anterior, de «Poder percebido»; caminhos de aprofundamento se desbravam, ao mesmo tempo que se tende a falar de evitar tal intenção (concentração) no que a fornecedores se refere, por um lado e, por outro, a credibilidade dos povos colocada nesses abastecimentos poderá mitigar o potencial de fornecimento de atores com essa capacidade;

– ainda sobre o diferencial de Poder e na lógica de perceção, o mesmo pode ser alterado, artificialmente pelo menos, com a procura e atribuição de responsabilidades e/ou causas, em que particularmente, as populações-alvo estão dispostas/coagidas, pelo efeito de massa, a acreditar e o contrário, também será verdade;

– por óbvia, julgamos, associação, ilumina-se, hoje, tanto como ontem e certamente evitando forçada cegueira para o futuro, a importância do fator geopolítico/geoestratégico «científico/tecnológico», particularmente como luz provocadora de úteis dissimetrias ao nível estratégico (lembram-se da «garra» de Siracusa ou de Arquimedes? lembram-se da divisão digitalizada norte-americana? lembram-se do número de patentes, sobre diversos assuntos, analisado pela lente dos territórios e dos povos que as geram? lembram-se da «procura de cérebros», entre muitos outros);

– o primado dos Estados e dos seus elementos constitutivos; a complexidade desta tipologia de contingências versus a dimensão supranacional, sempre considerando competências exclusivas e as que não o são; por extensão e tal como em situações difíceis contemporâneas, o «regresso» ao Estado; o «grito» pelo Estado. Em contraposição, o Estado e quem o dirige tem que perceber e saber, com alguma profundidade, sobre o funcionamento das sociedades que encabeçam; de outra maneira, complexo recorte e posterior ajustamento de medidas…;

– o tempo… e os níveis de decisão e de execução;

– a contínua acessibilidade a territórios e maiores possibilidades de estreita comunicação com os ocupantes da novidade espacial, multiplicada por orientadas vontades, a que não são alheias outras questões, que ocupam um espetro que vai desde as políticas até às culturais, passando pelas económicas, têm na sua grande maioria, salvo melhor opinião prolíferas vantagens, mas porventura também congregam desvantagens…;

– salvaguardando a lateralidade que possa ser encontrado no assunto, não resistimos a encaminhar pensamento para o que se designa de «reserva estratégica». Dispensando o conteúdo que encerra «reserva», permite-se apenas dizer que «estratégica» induz-nos, forçosamente, para duas ideias essenciais: a primeira refere-se a um critério de designação que é o da distribuição (como não temos, quem tem? e a partir daí, obtermos para fazer face a putativa situação futura); a segunda rebusca naquilo que navega na superfície da contingência conflitual (hostilidade), mas que submerge para maior profundidade; em última ratio regis, significa que se não possuirmos, a nossa sobrevivência pode ser colocada em causa em curto tempo (significa cumulativamente pensamento a tempo longo…até pode nem ser estratégico hoje, mas…). É a prevenção, «à la longue». E por onde anda a noção de aforramento, por exemplo, para as empresas (é certo, muitas vezes obrigadas a agir por pressão social fragilizada por raro raciocínio); lucra-se, aumenta-se, distribui-se ou redistribui-se, investe-se (pouco,  longe e digitalmente) e depois…não dura um mês, sem despedimentos, sem lay-off. É o factor estruturas económicas/empresariais objeto de análise;

– pese embora se aprecie a beleza da palavra «Geopolítica» e os «ares» que a sua utilização possa rebocar, não deve ser empregue num vácuo onde o desconhecimento encontre espaço para ocupar; onde as pessoas o respirem, como conhecimento, enganadas, enganando-as, simplesmente, por isso; pelos «ares»; o que acontece é que hoje a proliferação é inevitável e com ela a artificialização; esta, por sua vez, traz a primeira. A resultante é que o «quanto mais se sabe» quer dizer o «quanto mais se pensa que se sabe»… a confusão instala-se; geopolítica passou a ser estratégia, que por sua vez, se amarrou a ciência política em sentido restrito…significa que, também, o que se julga que é «um bom trabalho», é antes «o que se pensa que é um bom trabalho». Em tempos de solidariedades forçadas (não todas, obviamente), a que não será alheia matéria de «moda», estamos a dar uma benesse ao pensamento…também merecerá, dirão alguns, admitindo que todos «pensamos»;

– as especulações sobre o aparecimento do vírus faz-nos lembrar de imediato a unidade 731 de outros tempos do exército japonês; faz-nos lembrar o bombardeamento japonês em 1940 sobre a cidade chinesa de Ningho, com pulgas infestadas de peste negra; faz-nos lembrar o reiterado uso do mesmo método, quiçá preconizado pelo Japão já em 1945, sobre o aglomerado norte-americano de São Diego ( e porquê aí) e, de novo, quiçá evitado também por outra desgraça: a atómica. E provocando a memória, não daremos com o poderoso mongol, a efetuar tal «guerra biológica», na antiga cidade de Caffa (Crimeia), catapultando mortos, «ricos» em peste negra. É que se vírus não faltam, hospedeiros também não…independentemente da Convenção sobre Armas Biológicas.

Turquia, Grécia, Síria…

– Turquia, pivot geopolítico de Brzezinski, ou não visse na sua geografia/localização, robusta amarra de poder funcional, parece ainda não ter sido entendida pelos cérebros europeus; e já era tempo, até porque o seu pai, o Império Otomano, esteve sempre em estreita relação com a Europa;

– Umas das resultantes da GG foi a fragilização/desaparecimento dos impérios, onde se inclui o turco-otomano. Uma das imanências foi a «livre respiração» de territórios a sul (árabes), bem como daquilo que era «seu» à altura, na região balcânica. A tábua de salvação foi a própria Anatólia, essa península, ligação entre o Negro e Mediterrâneo, por um lado e, por outro, plasmando um crescente inóspito para leste. Tábua, de salvação, porque ali se encontrava o centro do outrora forte império (o último espaço a perder, o primeiro a atacar, por se ter em conta que reúne muitas vezes as condições que o tipificam como centro de gravidade), pululado por maioria de turcos;

– Mas o gigante otomano, em boa verdade, nunca se terá preocupado muito com o baptismo das regiões que abraçava, acautelando no entanto a sua organização administrativa, em áreas, com base no critério tribal, isto é, sustentando-se nas tribos que ocupavam essas áreas e que não eram só os Curdos. O desaparecimento mencionado no parágrafo anterior tentou ser controlado ou mitigado por aquilo que ficou conhecido pelos esforços de «Sikes-Picot»; antes destes, onde estavam Estados como o Líbano, a Arábia Saudita, obviamente Israel, a Síria, entre outros?

– E já repararam, entre outras coisas, na localização da Grécia, hoje, para além de ser arquipelágica aos milhares?  E, por exemplo, atendendo à importância do Egeu (desde que o rei com o mesmo nome se atirou ao mar) para o tido como um dos berços da civilização, não se configura, mesmo despejando a intenção, a Turquia, como importante «rival»? Continuaremos depois…

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